Yara Pina

Corpos à flor da terra (2021)

cabos de madeira enterrados sob a terra contendo marcas que

remetem às profundidades das covas onde foram

encontrados corpos de pessoas desaparecidas

instalação

155 x 230 cm

 

A desumanização post mortem que atinge as vítimas de diferentes cenários de violência pode envolver não apenas a ausência de sepultura e ritos funerários, mas também o desaparecimento de seus corpos como forma de apagar a autoria e os rastros das barbáries de suas mortes. Dessa forma, para que não sejam localizados, para que não reste qualquer traço humano, os corpos quando não destruídos, devem ser descartados, enterrados em cemitérios clandestinos ou ainda deixados em terrenos baldios, matagais ou zonas de difícil acesso. Como é o caso, hoje, por exemplo, das vítimas dos grupos de extermínios, do tribunal do tráfico, das milícias, das operações policiais – a população negra, grupos em situação de pobreza, marginalizados, “potenciais” criminosos -, ou ainda das vítimas do feminicídio, da transfobia e da homofobia.

Corpos à flor da terra são, portanto, aqueles que sofreram com a desumanização não apenas de suas vidas, mas também de suas mortes. Corpos violados, torturados, assassinados, que foram abandonados, embora encontrados, diretamente em contato com o solo, ou a poucos centímetros de profundidade deste, sem ritos funerários, em covas rasas ou valas comuns. Sobre a superfície da terra, se tornaram abjetos, insepultos, ou quase, já que seus restos mortais ficaram desprotegidos, sujeitos à rápida decomposição e, também, vulneráveis à ação destrutiva do tempo e de animais.

Dessa forma, muitos foram corrompidos, reduzidos a fragmentos de um corpo que foi despedaçado, ou ainda do que sobrou dele por meio das ossadas ou após a sua carbonização. Restos mortais que podem ser os últimos vestígios de um corpo humano, sujeito ao total apagamento, juntamente com sua identidade e memória, como aqueles que ainda não foram localizados, reconhecidos por suas famílias ou identificados pelo Estado, as vítimas dos massacres em presídios, os indigentes, os não-reclamados, que têm como destino final as covas rasas e as valas comuns dos cemitérios públicos.

No Brasil, há muito tempo nos deparamos com os corpos à flor da terra. Podemos citar o caso dos milhares de cativos que não sobreviveram aos maus tratos do navio negreiro e tiveram seus corpos descartados, deixados insepultos, há um palmo da terra, sem nenhum rito, no cemitério onde, também, funcionava o mercado do Valongo. Já num passado mais recente, temos o caso da Vala clandestina de Perus, localizada no Cemitério de Dom Bosco de São Paulo para onde eram levados os corpos e os restos mortais das vítimas de terrorismo de Estado, os desaparecidos políticos da Ditadura Militar e os exterminados pelos esquadrões da morte.

Corpos à flor da terra é uma instalação composta por cabos de pás de madeira, enterrados sob a terra, contendo marcas que remetem às profundidades das covas, entre 15 e 100 centímetros, onde foram encontrados os corpos de pessoas desaparecidas em várias cidades no Brasil. 

(Yara Pina)