Corpos incorruptos é sobre os processos de luto que permeiam os corpos das vítimas de massacres em presídios. Detentos que tiveram seus corpos esquartejados, decapitados e carbonizados por integrantes de facções que por meio de suas armas espetacularizavam, entre as fumaças das chamas de incêndio, cenas de barbárie transmitidas ao vivo pelos aparelhos celulares.

Os corpos das vítimas quando não identificados pelo Estado são entregues às famílias faltando pedaços – sem órgãos, cabeças, membros - ou em estágio avançado de decomposição. São vítimas que não tiveram direito a velórios, exumadas de forma improvisada ou até mesmo enterradas em valas comuns ou como indigentes.

Sendo assim, podemos falar que esses indivíduos passam por várias mortes. Uma vez inumanizados pelo sistema carcerário estão sujeitos a se tornarem massa informe, corpos abjetos, despedaçados e carbonizados pelas carnificinas que foram terceirizadas pelo Estado às facções. Por fim, o Estado sobrepõe mais uma vez a morte a esses corpos ao deixá-los apodrecerem para então cumprir finalmente sua política de apagamento total, destruindo qualquer vestígio humano e apagando identidades.

Se para muitas famílias o luto se torna impossível, já que não puderam se despedir do corpo de seu ente em estado precário, ou que ainda aguarda o processo de identificação, para outras a dor do luto se torna um ato político. Contra a vida de sujeitos que o Estado quis apropriar para então eliminar da sociedade, ocorre a desinumanização post mortem desses corpos pelas famílias que precisam percorrer uma longa e dolorida jornada de enlutamento após os atos sangrentos. Em todos esses casos, enlutar os corpos se torna um ato político, uma vez que há o empenho em reunir as partes de um corpo que foi corrompido – ou o que restou dele – para dessa forma sepultar, devolver seu nome e dar-lhe uma memória.

© 2018 por Yara Pina.

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