Corpos sulcados (2019)

sombra e terra sulcadas com relha de arado

vestígios de ação

A identificação do corpo da mulher com a terra está presente em várias mitologias e narrativas que ora o remetem ao sagrado e aos ritos de fertilidade, ora ao legado do patriarcado como seu meio de dominação e violência. A coerção como domesticação, poder e controle ganha contornos ainda mais evidentes dentro do imaginário moderno ocidental, uma vez que o dualismo natureza e cultura e seus desdobramentos, reduzem a mulher ao seu corpo, território a ser desbravado e explorado.

 

E é nesse sentido que a intensificação de sua objetificação e territorialização ao longo de toda sociedade capitalista e, consequentemente, de seu projeto de colonização de corpos, se constituirá num importante meio de reprodução e acumulação da força de trabalho. Não é por acaso que presenciamos hoje uma tradição de violência que sujeita a mulher a abusos e violações de todos os tipos seja nos nos altos índices de feminicídio e de violência sexual, seja na criminalização dos direitos e controle sobre seus corpos.

 

Partindo da relação entre o corpo da mulher e a terra, proponho nesta ação remeter a um instrumento agrícola de origem muito antiga e tradicionalmente submetido ao monopólio do sujeito masculino – o arado - para simbolizar não apenas o controle do homem e do Estado sobre a terra e aos meios de produção, mas também ao corpo da mulher. Num primeiro momento, a relha de um arado é utilizada como uma arma para agredir minha sombra, deixando fissuras que serão, em seguida, preenchidas com a terra vermelha. Já sobre o chão, utilizo o instrumento para reproduzir os sulcos de uma terra penetrada pelo arado.

Plowed bodies (2019)

earth and shadow marked with plow

traces of action

The identification of the woman's body with the earth is present in various mythologies and narratives that sometimes refer to the sacred and fertility rites, sometimes to the legacy of patriarchy as its means of domination and violence. Coercion as domestication, power and control takes on even more evident contours within the modern western imagination, since the dualism nature and culture and their unfolding reduce the woman to her body, territory to be explored and explored.
And it is in this sense that the intensification of its objectification and territorialization throughout the entire capitalist society and, consequently, of its project of colonization of bodies, will constitute an important means of reproduction and accumulation of the labor force. It is no coincidence that we are witnessing today a tradition of violence that subjects women to abuses and violations of all kinds, whether in the high rates of femicide and sexual violence, or in the criminalization of rights and control over their bodies.
Starting from the relationship between the woman's body and the land, I propose in this action to refer to an agricultural instrument of very old origin and traditionally submitted to the monopoly of the male subject - the plow - to symbolize not only the control of man and state over the land. and the means of production, but also the woman's body. At first, the plow shell is used as a weapon to assault my shadow, leaving cracks that will then be filled with red earth. Already on the ground, I use the instrument to reproduce the grooves of a land penetrated by the plow.

 

© 2018 por Yara Pina.

  • Yara Pina
  • Yara Pina (Instagram)