Yara Pina

Corpos sulcados (2019)

sombra e terra sulcadas com relha de arado

vestígios de ação

 

A identificação do corpo da mulher com a terra está presente em várias culturas e narrativas que ora remete ao sagrado e aos ritos de fertilidade, ora ao legado do patriarcado como meio de dominação e violência.

Se o patriarcado se fez presente em várias culturas como um sistema de coerção, poder e controle do corpo feminino, no caso do ocidente, por exemplo, esteve atrelado ao dualismo natureza e cultura, e seus desdobramentos, que reduziram a mulher a seu corpo, território a ser desbravado e explorado. Já nas colônias, a objetificação e territorialização de corpos femininos pelo homem branco europeu se deu como parte do projeto “civilizatório” moderno do ocidente a serviço do capitalismo. Por aqui, enquanto a “terra virgem” era devastada para fins extrativistas, mulheres indígenas e mulheres negras eram violentadas, escravizadas e exploradas como importante meio de reprodução e acumulação da força de trabalho.

É com base em todos esses legados deixados pelos sistemas patriarcal e colonial, absorvidos pelo capitalismo, que se estruturou um sistema de opressão contra as mulheres. Embora, para muitas, a violência esteja pra além da desigualdade de gênero. Uma vez que fatores como racismo, etnia e classe social se tornaram determinantes sobre a vulnerabilidade e a invisibilidade as quais foram sujeitadas na nossa sociedade. No caso das mulheres indígenas e das mulheres negras, por exemplo, a territorialização de seus corpos se mantém até hoje como resistente estratégia de dominação e poder. Reflexos esses que podem ser notados, por exemplo, nos extermínios de suas populações, nos índices cada vez mais crescentes de feminicídio e de violência sexual, na exploração sexual e da força de trabalho e, até mesmo, na criminalização da luta pelos direitos e controle sobre seus corpos.

Partindo da relação entre o corpo da mulher e a terra como um meio de dominação e manifestação recorrente das violências de origens patriarcal e colonial, proponho nesta ação remeter a um instrumento agrícola de origem muito antiga e tradicionalmente submetido ao monopólio do sujeito masculino – o arado - para simbolizar não apenas o controle e exploração do homem sobre a terra e aos meios de produção, mas também sobre os corpos das mulheres. E a partir disso, também, refletir de que forma violações sofridas, no Brasil colonial, por mulheres negras e mulheres indígenas, estruturam sistematicamente opressões que perpetuam até hoje como forma deixa-las cada vez mais vulneráveis à violência sexual, ao feminicídio e à exploração de seus corpos.

Num primeiro momento, a relha de um arado é utilizada como uma arma para agredir minha sombra, deixando fissuras que serão, em seguida, preenchidas com a terra vermelha. Já sobre o chão, utilizo o instrumento para reproduzir os sulcos de uma terra penetrada pelo arado.

 (Yara Pina)

Plowed bodies (2019)

earth and shadow marked with plow

traces of action

The identification of the woman's body with the earth is present in various mythologies and narratives that sometimes refer to the sacred and fertility rites, sometimes to the legacy of patriarchy as its means of domination and violence. Coercion as domestication, power and control takes on even more evident contours within the modern western imagination, since the dualism nature and culture and their unfolding reduce the woman to her body, territory to be explored and explored.
And it is in this sense that the intensification of its objectification and territorialization throughout the entire capitalist society and, consequently, of its project of colonization of bodies, will constitute an important means of reproduction and accumulation of the labor force. It is no coincidence that we are witnessing today a tradition of violence that subjects women to abuses and violations of all kinds, whether in the high rates of femicide and sexual violence, or in the criminalization of rights and control over their bodies.
Starting from the relationship between the woman's body and the land, I propose in this action to refer to an agricultural instrument of very old origin and traditionally submitted to the monopoly of the male subject - the plow - to symbolize not only the control of man and state over the land. and the means of production, but also the woman's body. At first, the plow shell is used as a weapon to assault my shadow, leaving cracks that will then be filled with red earth. Already on the ground, I use the instrument to reproduce the grooves of a land penetrated by the plow.