Yara Pina

Corpos-território (2021)

sombra violada com o revezamento de carabinas, terra vermelha

vestígios de ação

A violação sexual de mulheres como exercício de poder é recorrente em cenários de guerra, conflitos armados e disputa por controle territorial que reproduzem o modelo patriarcal do uso da violência para legitimar a dominação do sujeito masculino.

Nesse sentido, o estupro coletivo é uma arma genocida utilizada não apenas para torturar e destruir grupos de populações consideradas inimigas, mas também como ato de punição, humilhação, vingança, objetificação e exploração sexual de crianças, jovens e mulheres.

 

Com um histórico repleto de violações contra corpos femininos, tais como, o estupro de mulheres negras e mulheres indígenas como parte do projeto civilizatório do colonialismo, e de presas políticas na Ditadura Militar, dentre tantos outros casos, o estupro coletivo tem se perpetuado, ainda hoje, no Brasil, em várias cenas de violência onde o corpo da mulher é tomado como propriedade e território.

Em regiões onde há conflitos por terra, por exemplo, jagunços estupram mulheres do campo e mulheres indígenas como forma de aterrorizar suas comunidades. Além das violações, é comum o uso da violência armada a mando de fazendeiros para promover massacres e incendiar moradias com o intuito de expulsar os moradores de suas terras. Já em áreas urbanas, o estupro coletivo tem sido empregado como ato de punição e exploração sexual em territórios dominados pela milícia e pelo narcotráfico que propagam o horror e a política do medo, graças a ostentação e uso de seus poderes bélicos, com mortes e desaparecimento de corpos.

No Brasil, temos, portanto, diferentes contextos de violência armada em que corpos femininos foram anexados ao controle territorial de grupos de violadores que fazem do estupro coletivo uma arma poderosa não apenas para inscrever o domínio que possuem sobre as vidas dessas vítimas, mas também sobre suas comunidades.

Partindo desses campos de violência, proponho em Corpos-território refletir sobre o estupro coletivo de mulheres como estratégia recorrente, terrorista e genocida que tem como objetivo silenciar suas vozes ao mesmo tempo em que territorializa seus corpos. Durante a ação violo minha sombra, projetada na parede, utilizando carabinas em revezamento. A terra vermelha é, então, aplicada para formar a silhueta sobre as marcas da minha sombra e, também, para silencia-las simbolicamente, no momento em que derramo o pó da matéria sobre seus canos das armas.

(Yara Pina)