Yara Pina

Zona de esfumaçamento (2021)

sombra agredida com golpes de carabina, cinzas de imagens

de vítimas de execuções sumárias no Brasil

vestígios de ação

No Brasil, a ocorrência de execuções sumárias tem sido protagonizada por policiais que estão a serviço de uma política nacional de segurança de “combate” à criminalidade e, também, de um poder terrorista lucrativo que conta ativamente com a atuação desses agentes do Estado em milícias e grupos de extermínio.

Tal prática que conta, portanto, com a participação direta do Estado brasileiro foi sendo consolidada ao longo dos anos 60 como modus operandi pelos esquadrões da morte, grupos paramilitares formados por policiais civis e militares que possuíam amplo respaldo da política de repressão vigente no período da Ditadura Militar. Nesse sentido, fazia parte do projeto do regime repressor não apenas combater e torturar, mas também envolver o Estado na execução sumária e no desaparecimento do corpo do “inimigo interno” (moradores de comunidades periféricas, indivíduos em situação de pobreza, considerados potenciais “criminosos”, ou ainda, opositores políticos acusados de terrorismo e subversão).

​As vítimas de execuções sumárias, hoje, no Brasil, carregam em seus corpos as mesmas marcas de violência que corroboram com a tal prática de extermínio estruturada a partir dos governos militares em prol de uma política nacional de segurança na luta contra o crime e os opositores do regime. Alvejar corpos à queima roupa, à curta distância, ou ainda realizar rajadas de tiros, atingindo regiões letais como tronco, nuca e cabeça, são rastros dessa perpetuação de terrorismo de Estado que vem sendo reaplicado em diferentes cenários de violência com a ampla participação de agentes das forças de segurança à serviço de uma política genocida e de práticas criminosas comandadas por milícias e grupos de extermínio.

São atores que agem, portanto, legal e ilegalmente, de dentro Estado. Com o respaldo da lei, podemos citar as operações policiais que resultam em abatimento de corpos, chacinas em favelas e massacres nos presídios, tendo como discurso a manutenção da ordem, a guerra às drogas, a destruição de facções criminosas ou ainda a “redução” dos índices de criminalidade, mas que na realidade, atendem a uma política genocida que pode ser utilizada tanto para alavancar a popularidade política dos governantes como para glorificar e promover aqueles policiais que cumprem o lema “Bandido bom é bandido morto”. Já como integrantes de grupos criminosos, esses agentes estatais geralmente atuam ilegalmente por meio de grupos de extermínios e milícias. Enquanto os primeiros são encarregados de fazer a “limpeza social”, se envolvendo muitas vezes na prestação de serviços ilícios a terceiros, as milícias, por outro lado, instalam as políticas da extorsão e do medo nas comunidades urbanas que estão sob seu forte domínio territorial, promovendo execuções sumárias de moradores, políticos e ativistas, com base em seus interesses políticos e econômicos

​Busco explorar esse campo de violência que permeia as diferentes formas de desempenho do Estado nas execuções sumárias como uma política de extermínio que foi estruturada há décadas com a participação de policiais nos esquadrões da morte que, por sua vez, deram origem às milícias. Hoje, esses homicídios continuam ocorrendo pelas mãos desses mesmos agentes de segurança que executam indivíduos movidos não apenas pelo amparo legal dos “autos de resistência seguidos morte” e da impunidade, mas também pela lógica lucrativa do crime.

Como se trata de uma zona de violência difícil de delimitar, uma vez que esses policiais também integram grupos criminosos, muitas vezes difusos na forma de agir, talvez fosse preciso buscar o contorno dessas fronteiras nos rastros das execuções sumárias gravados sobre os corpos das vítimas.

Chamo de zona de esfumaçamento, portanto, os diferentes campos de atuação do Estado na participação direta de execuções sumárias como prática exterminadora do “inimigo” que, por sua vez, atendem também a uma demanda política, social e econômica. Ao partirmos da relação intrínseca entre Estado, necropolítica e capital, estamos lidando com campos de violência em que as vítimas são sempre reduzidas a corpos matáveis, ou seja, as populações pobres, negras, periféricas e marginalizadas.

Durante a ação, agrido minha sombra projetada na parede com o cano de uma carabina, focando, principalmente, nas regiões letais de um corpo humano. Num segundo momento, utilizo as cinzas das imagens de vítimas de execuções sumárias, publicadas pela imprensa, para formar uma silhueta e, também, para destacar as marcas das agressões que ficaram na minha sombra. Como gesto final, encubro, com as cinzas, a carabina sobre o chão.  

(Yara Pina)